fim dos tempos

Assistindo ao que está acontecendo no mundo, no que diz respeito ao confronto entre as potências, obrigatoriamente sou levado a me lembrar da minha infância e adolescência. Nessa época, nas festas de fim de ano, mais especificamente na noite da véspera de ano novo, tenho a lembrança de orarmos em casa pelo ano que se iniciava e, por não termos sofrido com o inverno nuclear onde restariam apenas as baratas.

Sendo um legítimo SRD safra 74, peguei apenas o final desse período da história. Passei por inúmeros “fins de mundo” sobrevivendo à todos eles. Lembro da queda do muro de Berlim, lembro das lágrimas de muita gente vendo pela TV aqueles doidos se abraçando em cima do muro. Quiça o mundo agora respirava mais tranquilamente.

Ainda tenho na memória a sensação de saber que mais um ano tínhamos sobrevividos. Trago as marcas de uma geração que sabia o que era uma bomba de nêutrons, que ouvia rádio de ondas curtas como se estivesse praticando um ato ilícito (herança dos anos de chumbo) ouvir a radio de Moscou transmitindo em espanhol era algo altamente subversivo.

Enfim, entra frases meio desconexas carecendo de melhores conectores, no mesmo compasso em que volto a ouvir redemocratização, assisto aflito o mundo voltar a arder. Não há palavras que possam traduzir a tristeza que aos poucos vai tomando conta e as memórias que vão ganhando contornos reais de um tempo que deveria servir de alerta, porém, permanecer no passado.

Fim dos Tempos

 

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dessa vida

Eu e meu pai tivemos poucas conversas infelizmente, porém seria uma injustiça dizer que não foram profundas. Certa vez ele me disse, dessa vida não se leva nada a não ser o que se faz pelos outros. Independente do credo individual, já imaginou o difícil que é isso? Ainda que fosse aecista e defendesse valores reacionários, não vivia conforme… ele não dava esmolas, mas sim, dava do seu tempo, dos seus bens, fazia o que estava ao seu alcance pelos outros. Trocando em miúdos, vivia conforme o papa Francisco disse a respeito dos cristãos… Apenas não sabia… Enfim, as vezes acordo com alguma lembrança dos nossos poucos momentos, pérolas cultivadas no jardim da vida que deixo aqui para que não caia no meu esquecimento.

estou aqui

Por aquelas curiosidades da vida, algumas coisas acontecem sem que tenhamos condições de fazer qualquer tipo de previsão. Ela dormia em cima do meu braço, tudo dentro do esperado e desejado. Enquanto ela ali largada ao meu lado, outra companhia estava presente sem qualquer pudor, a insônia. A mente martela inúmeras questões, dilemas, angústias, más lembranças e expectativas madrugada adentro enquanto ela se mexia, puxava a coberta e resmungava qualquer coisa. Então, dada hora há a necessidade de me levantar, retiro cuidadosamente meu braço para que não desperte e, vou aos poucos me afastando. Então num impulso, ela se vira e me puxa!! Imediatamente encosto de novo e digo, “estou aqui”… Isso posto, imagina a felicidade para quem é carente e gosta de mulher grudenta? O que posso dizer é, que das dúvidas até então reinantes, estas cederam espaço para uma certeza tranquila e concreta,  ela é do jeitinho que eu gostaria que fosse…

2016

Mais um ano que chega ao fim… dessa vez formado… finalmente bacharel em Relações Internacionais… passado um semestre meio sabático, ainda que não tivesse sido essa a intenção… retomar alguns projetos que ficaram meio em suspensão com os acontecimentos em família… emagrecer novamente o que ganhei com a faculdade e todas as deprês que acometem a cada novo conhecimento, pois o processo de desconstrução de crenças, não é algo fácil, muito menos é para gente fraca… se reescrever é algo árduo e necessário… que 2016 seja melhor do que foi 2015…

dia dos pais

Amanhã completa nove meses do falecimento do meu pai e no domingo será o primeiro dia dos pais sem sua presença. Entre aquelas coisas como saúde e liberdade que se sente apenas quando falta, está qualificado nessa mesma categoria esses dias de festividades que para alguns é aborrecido, para outros apenas uma data comercial sem sentido mais profundo…

Quando era adolescente tinha aquela ideia de ter um time de basquete de filhos, duas alas, dois atacantes, um pivô e obviamente eu de técnico. O tempo vai passando e vamos diminuindo a expectativa, de cinco baixei para três por questões de custos (é caro!!), sem a necessidade de formar um time, quiçá uma dupla de tênis de mesa. Casei, a expectativa permanecia a mesma, descasei e a agência de risco fez outro rebaixamento, foi para um, de preferência se possível uma menina…

Passado tanto tempo sozinho, novo rebaixamento, expectativa de zero filhos. Diante desse contexto, sem parceira, me acomodei como a maioria de nós homens faz em relação a tudo, como saúde, carreira e etc… Com o falecimento do meu pai, eu ali do lado dele (ele faleceu diante dos dois filhos além da equipe de médicos, paramédicos e da minha mãe, penso que foi bom minha irmã não estar presente caso contrário seriam dois falecimentos), essa ideia voltou aos poucos como quem não quer nada, pois quem sabe de repente seja bom ver uma parte sua seguir adiante…

os zinta chegando ao fim

caso não ocorra alguma fatalidade antes, como avião caindo aqui em casa, me tornando alvo de uma bala perdida, ser atropelado por algum borracho ao volante… tudo leva a crer que entrarei nos zenta amanhã, afinal sou um legítimo SRD safra 74…

não teve jeito de escapar, Deus não me quis nem o diabo me aceitou, não que tenha objetivamente buscado descobrir se por acaso algum deles existe, mas como bom filho de xangô, levei uma vida onde por várias vezes permanecer vivo seria um mero detalhe, ou como dizem os candomblecistas, “só estão vivos por misericórdia do santo”… como andar no capô do carro… arranjar briga bêbado, ok, foi uma vez só, mas valeu pela vida toda, pois deveriam ser uns trinta sendo salvo porque no meio deles tinha um camarada meu… dirigi a mais de 200 km/h… fui racheiro convicto… enfim, uma série de coisas de gente retardada…

casei, divorciei, a casa que ajudei a construir ficou para trás… me lancei candidato… as chances desperdiças, e tantas outras coisas que nesses dois últimos meses passaram pela cabeça como se tivessem acontecido ontem… desde a escola, viagens, amores, mulheres, um tanto de coisa que parecia um balancete diário… péssima hora para uma crise existencial, ainda mais sendo antecedida por uma deprê do cão que me fez pagar a língua por achar que isso era coisa de gay…

teimoso, repito o erro várias vezes para ter certeza que é errado… mudei de estado por causa de mulher, duas vezes… infelizmente ainda não descobri uma que valha tal esforço… desgraçadamente ainda não deixei de ser romântico, ainda que seios seja o que mais acho bonito, são sorrisos e olhares que me quebram as pernas…

enfim… diz que da infância o mais difícil são os primeiros quarenta anos, verei então como serão os outros quarenta… quem sabe não tenha mais vontade de apertar a campainha e sair correndo, molhar os outros em dia de chuva, ou ao passar uma moça na rua com aquelas saiazinhas esvoaçantes, fique torcendo para que bata um vento e a levante, não vou nem comentar à respeito de escadas… e quem sabe, como diz Pepe Mujica sobre Lucia ¨Hay una cara femenina del acontecer que si no existe, estamos perdidos¨… a cara metade apareça, pois a área que escolhi, política internacional, é tão podre, tão imoral, que ainda me falta a companheira para que seus olhos e sorriso não me deixem perder o que há de humano dentro de mim…

deprê

esses dias me dei conta que não tenho mais crises de pânico desde o fim do ano passado, e que faz dois ou três meses que a ideia de suicídio não me vem mais a mente… situação esta que foi o que me levou a começar a escrever coisas aqui, isso em 2010… depois desse tempo todo finalmente posso dizer, depois da crise aguda no final do ano passado, agora as ideias começam a fluir novamente e o estado de apatia começa finalmente a ceder… e das profundas reflexões que tive nesse meio tempo, uma me chamou a atenção, é que posso dizer que minha geração foi bem adestrada a esconder o que sente, seus medos, seus problemas… nem família, nem amigos perceberam a situação, principalmente nos últimos dois anos… e não foi porque eles fossem desligados, é porque se esconde muito bem… fomos ensinados assim… aos poucos que contei qualquer coisa superficialmente, ou consideraram  coisa sem valor, ou frescura me deixando sentindo culpa por estar assim… enfim… passou…